Comunicar e Metacomunicar…
Comunicar: Lat. Communicare; fazer Comum, ter passagem, falar e participar.
(Meta)comunicar: tem a finalidade de falar sobre a comunicação
A palavra é uma das mais vulgares formas de comunicação ou de estabelecermos pontes com os outros. É também, uma das mais influentes: com ela podemos transmitir sentimentos e emoções, com ela animamos e entristecemos, destruímos e construímos, mentimos, elogiamos e curámos.
Poucos de nós nos damos conta do poder da palavra e usamos, muitas vezes, sem a mínima cautela, essa “bomba de neutrões” que temos cá dentro.
Se dúvidas existissem bastaria referir o poder que discursos imprimiram na nossa história, os poemas que nos fazem suspirar e prender a respiração ao ouvi-los ou lê-los. Desta forma assim como há palavras que animam as pessoas também as há que desalentam e podem mesmo destruir um bom relacionamento.
Exemplo disto é o que acontece de forma continuada nas nossas famílias, ou seja, existe um padrão mais ou menos estável de comunicação entre pais e filhos que mostram uma cegueira impressionante sobre o poder destrutivo que a comunicação tem nos seus relacionamentos. Ou seja, no que diz respeito à menor qualidade da comunicação, que se manifesta geralmente sob a forma de desvalorizações e comentários negativos (por ex.: comunicação mãe-filho), o que resulta, em jovens com baixa autoestima, baixa autoconfiança e obrigatoriamente inseguros. A insegurança resulta do facto de nestes jovens tudo o que fazem no seu dia-a-dia ser simplesmente ignorado, desvalorizado e visto de forma negativa ou muito raramente ser reforçado positivamente ou elogiado na comunicação que estabelecem com os seus pais. Assim sendo não raras vezes se ouve jovens afirmar “Não digo nada aos meus pais se não matam-me!”, ou comentários parentais do género, “Não fazes mais que a tua obrigação!”.
Devemos ouvir o que os filhos nos querem comunicar, isto sem interromper principalmente para lembrar os erros cometidos anteriormente “Lembras-te da outra vez…?”, “Já me disseste isso antes, e lembras-te do que aconteceu…?” ou usar expressões do tipo “Outra vez a mesma coisa?”, “Tu nunca mais aprendes!”.
Assim a percepção dos grupos de pares começam a ser (sobre)investidos pelos jovens, como alternativa ou para a compensação da compreensão, confiança e satisfação desejável. Esta deslocação é muito frequente nos jovens e é importante, contudo ela faz-se acompanhar de um menor investimento familiar, tal fenómeno é muito generalizado e até esperado, embora não seja sinónimo de perigo ou risco, poderá resultar nele, para os jovens que não tenham uma transição saudável.
Outro exemplo muito comum é o de casais que apresentam problemas de comunicação que se traduzem em problemas mais ou menos sérios no relacionamento conjugal e familiar. Quantas vezes queremos dizer coisas que nos fere ou aborrece e não o fazemos, guardamos tudo no nosso íntimo, pensando que não vale a pena, até que um dia “explodimos” e essas coisas insignificantes convertem-se em comentários destrutivos e agressivos, que geram mais agressividade, que vitimam com danos por vezes irreversíveis ou de difícil gestão, danos que não afectam apenas a um dos indivíduos do casal mas sim a toda a família de uma forma geral (vitimas colaterais). As repercussões podem revelar-se ao nível da insatisfação conjugal, problemas familiares, e reflectem-se igualmente ao nível biológico, psicológico, social e profissional. Contudo é curioso verificar que existe uma grave desvalorização e cegueira perante toda a gama de traumas e agressões psicológicas existentes (que geralmente são de natureza verbal, não esquecendo as não verbais também importantes) bem como, vítimas e seus danos, quando e curiosamente, assistimos inversamente a uma excessiva valorização de traumas biológicos sem grande importância do nosso dia-a-dia, quem não se lembra das famosas nódoas negras, delas ter sofrido e como se desenvolvem?
Para que fique claro, em qualquer situação traumática fisico-biológica, o trauma biológico (a nódoa…) poderá existir ou não mas o trauma ou a perturbação psicológica existe sempre.
A comunicação é uma arte que, felizmente, não se baseia apenas no talento natural de uma pessoa, mas também numa certa quantidade de competências que podemos aprender e treinar.
Sendo assim se considerar-mos de forma simples a comunicação como sendo apenas a capacidade de emitir informação e receber a mesma de forma inteligível, podemos afirmar que comunicar é exprimir-se bem e ouvir bem.
È interessante como o nosso dia-a-dia se verifica constantemente que existem pessoas que parecem não saber parar de falar e outras que dificilmente dizem duas palavras, existem também pessoas que têm grandes dificuldades em saber ouvir o que lhe dizem, e isto claro está em pessoas ditas “normais”.
Também é verdade que falar em comunicação é falar da sua natureza complexa, nomeadamente:
1. Da impossibilidade de não se comunicar, assim sendo comunicação é igual a comportamento. Não é possível não comunicar mesmo não verbalizando (as não verbalizações têm significado), os silêncios, a comunicação não verbal ou, nem sequer, através dos evitamentos que significam que a matéria é indesejável.
2. Toda a comunicação transmite Informação (conteúdo) e define uma Relação. Quanto mais espontânea e saudável é uma relação, mais o aspecto relacional da comunicação recua para um plano secundário, as relações “doentes” caracterizam-se por uma constante luta sobre a natureza das relações (poder, submissão, dependência, independência…), tornando-se cada vez menos importante o aspecto do conteúdo da comunicação (a luta pelo poder da relação: “quem manda”, “quem decide”). Portanto, a relação é uma metacomunicação, dado que é uma informação sobre a informação, e poderá haver confusão entre as duas.
3. Pontuação da sequência da comunicação. A pontuação organiza os eventos comportamentais e, portanto, é vital para as interacções em curso, uma pontuação discordante está muitas vezes na base de graves discordâncias nas relações estabelecidas, no casal por exemplo “eu calo-me porque me criticas”, “eu critico-te porque tu te calas”.
4. A comunicação é Analógica (ou não verbal) e Digital (ou verbal, conteúdo verbalizado concretamente). A comunicação analógica não tem qualificadores para indicar qual de dois significados discrepantes está subentendido, ao contrário da comunicação digital.
Resumindo, os seres humanos comunicam digital e analogicamente: A linguagem verbal ou digital é uma sintaxe lógica (regras gramaticais) muito complexa e poderosa, mas carente de adequada semântica (significado) no campo das relações, ao passo que a linguagem não verbal ou analógica possui semântica, mas não tem uma sintaxe adequada para a definição não ambígua da natureza das relações.
5. Igualdade (simetria) e diferenças (complementar) comunicacionais. Todas as permutas comunicacionais ou são simétricas ou complementares, consoante se baseiam na igualdade ou nas diferenças respectivamente.
Os sujeitos não comunicam: envolvem-se na comunicação, tornam-se parte da comunicação. Portanto, a comunicação não pode ser vista como um sistema acção/reacção.
Finalmente e para que esta arte de comunicar seja funcional, útil e prazerosa devemos promover as capacidades de:
(Meta)comunicação, não é mais do que falar sobre a própria comunicação, (o estilo, a forma, o conteúdo, o tom, o ritmo, os silêncios, os evitamentos, as fugas…);
Ouvir com atenção, com interesse e recorrendo se necessário a pedido de esclarecimento ou de confirmação da informação recebida mediante resumos do que se acabou de ouvir;
Não explodir, não importa o tempo que se demore a ouvir, é muito importante não explodir a meio ou no final da conversa sob pena de se destruir a ponte que nos liga ao outro que é a comunicação, (por ex.: as crianças muitas das vezes, não contam tudo à primeira, é como se fossem testando a reacção do adulto à medida que vão contando o que querem, e se por acaso a reacção do adulto for agressiva ou explosiva ao ouvir algo que geralmente até é inofensivo, as crianças poderão de futuro não ter o sentimento de segurança/confiança e desta forma nunca irão contar tudo, aumentam assim as possibilidades de os pais virem a saber de noticias tristes acerca dos seus filhos por terceiros);
Pensar antes de falar, nem que para tal faça pequenas pausas antes de iniciar a sua narrativa;
Respeite, quem quer ser respeitado respeita os outros, (por ex.: rir dos erros dos outros, “Não me digas que foste tão palerma que…”) devemos partilhar experiências semelhantes e dar a nossa opinião;
Prudência, diga o que deve dizer no momento certo.
OIÇA COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ QUE LHE FALAM E FALE COMO SE FOSSE A ULTIMA VEZ QUE CONVERSAM
Estaremos assim a ajudar os outros mais do que podemos imaginar, e a nossa vida terá mais satisfação relacional, porque os outros sentem mais segurança e confiança em nós.