2007-12-30

Deixar de Fumar ...

Deixar de Fumar I …




Fumar ou não fumar? …

…Eis a questão!

Eis uma pergunta muito actual e pertinente nos dias que se aproximam, contudo antes de decidir como responder e a atitude a tomar, devemos compreender e conhecer os comportamentos, que nós Humanos temos face ao Tabaco.

O que é o Tabaco afinal?

Não podemos ignorar que já nos relacionamos historicamente com o Tabaco, planta herbácea, originária da ilha de Tabago, cujas folhas depois de secas, se fumam, se cheiram e/ou se mastigam. O seu passado remete-nos aos tempos dos Maias, Incas e Aztecas entre os Séc.s VI e VII, o que só por si já diz alguma coisa… pelo menos sobre a dificuldade que temos em viver livres do Tabaco e do objecto de desejo que este é para o ser Humano.

O Tabaco apareceu como agente de significado cultural/ritual (cachimbo da paz…), agente com valor medicinal e associado a várias formas de prazer.

Teve igualmente várias denominações ao longo da sua evolução:
Séc. XVI «Erva Santa»,
Séc. XVII «Erva do Diabo»,
Séc. XVIII Sucesso do Rapé,
Séc. XIX Charuto e Cigarro,
Séc. XX Aparecimento da Mecanização do Fabrico do Cigarro.

Na realidade…, o cigarro apresenta-se actualmente muito diferente do seu passado. O seu consumo que era habitualmente tolerado, constantemente publicitado, bem como associado a grandes marcas, e figuras públicas ( que por sinal eram pagas a peso de ouro). O tabaco, começa assim, em pleno Séc. XXI, a ser um mal amado por muitos. Para isto contribui, entre outras, a imagem do cigarro que é produzido em poderosas empresas tabaqueiras que não olham a meios para atingir fins, que escondem nos seus mais de 4000 componentes, substancias tóxicas como: Alcatrão, Nicotina, Monóxido de Carbono, Substancias Irritantes, Amónio, Acetona, Naftalina, Formol… ignorando os seus malefícios para a saúde de todos. Será essa uma ignorância “ingénua”, ou “proveitosa”?

Destes componentes, saliento especialmente a Nicotina, porque já faz as delícias das empresas farmacêuticas pela sua utilização como recurso e/ou complemento à psicoterapia. Falo das chamadas terapias de substituição, (por ex. pastilhas de nicotina que são utilizadas para diminuir a síndrome de abstinência da Nicotina dos consumidores), como todos podemos verificar facilmente todos os dias nos anúncios publicitários das nossas TV`s.
Isto, claro está, porque a Nicotina cria dependência no consumidor, e com ela todas as perturbações e dificuldades de reabilitação (como já tenho dito anteriormente, e para mais informações ver o post Dependência…).

Tal facto, leva à repressão social do Tabaco, pela população informada de uma forma geral e, em particular com enquadramentos legais específicos que permitam aos fumadores e não fumadores defenderem os seus direitos e deveres sem desrespeitarem o(s) outro(s) mutuamente.

Há milhares de boas razões para dizer adeus aos cigarros:...

Talvez esteja cansado de cheirar como um cinzeiro,
Talvez custe desperdiçar tantos euros todos os anos,
Talvez gostasse de acabar com as dificuldades de respiração,
Ou talvez se sinta deprimido quando verificar que é das poucas pessoas que se sentam na zona para fumadores…

Além do mais, não é muito animador saber que o desempenho sexual pode estar diminuído, quer se seja homem ou mulher.

Isto tudo sem desenvolver muito o interminável rol de complicações para a sua saúde como: Cancro, Doença Cardíaca, Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica, Insuficiência Renal, “Tosse de Fumador”…
Sendo algumas destas, principais causas de morte (DPOC, Doença Cardíaca) que se arrastam por longos períodos de agudização dos sintomas. Ou seja, as mortes por doenças do tabaco não são geralmente mortes rápidas.

Podemos dizer que em média, cerca de 8 em cada 10 não fumadores vive mais de 70 anos, pelo contrário só metade dos fumadores crónicos vivem mais de 70 anos.

Ainda quer mais razões?

(cont.)

2007-11-30

Criança deprimida ou uma “fase difícil”…?




A depressão infantil é em muitos casos algo que fica esquecido ou seja é remetida para segundo plano ou mesmo negada.
Tal facto deve-se entre outros motivos, à forma como o comportamento das crianças é visto e tido pelos adultos que as acompanham de alguma forma.
Face às incertezas e mudanças comportamentais (problemas ou preocupações, que podem ser mais ou menos naturais/adequadas ou esperadas) das crianças, é frequente nos adultos que estes refiram ou justifiquem como causas habituais para as ditas mudanças, a variação natural do seu desenvolvimento (a variação de uma fase do desenvolvimento para outra) na criança, como sendo o principal responsável ou “culpado” por tais alterações, reacções, comportamentos ou pensamentos.

Será que este movimento de diluição da responsabilidade dos adultos não terá nada que ver com a culpabilidade que acarreta para estes o facto de se sentirem fracassados no seu papel de “bons” pais, cuidadores, educadores, etc… quando ou sempre que o desenvolvimento das crianças fica ameaçado/prejudicado/diminuído de alguma forma?

Realmente, acontece no desenvolvimento das crianças que muitas vezes as suas perturbações possam advir do seu estádio de desenvolvimento dito “normal” (e até mesmo fazer parte dele). Assim como é igualmente verdade a possibilidade de o estádio de desenvolvimento em que a criança se encontra, ser seriamente perturbado na sua normal evolução, pela presença de depressão infantil ou outra perturbação na criança que, não foi devidamente acompanhada ou tratada. Exemplo disto é o caso em que a criança apresenta consequências negativas ao nível do seu rendimento escolar (porque a escola está muito presente na vida das crianças e é muito sensível às alterações destas), ou outras formas de regressões como: diminuição das habilidades ou capacidades psicolinguísticas, alimentares, higiene pessoal, etc… que poderia até já dominar e regrediu para uma fase anterior em que estas competências ainda não tinham sido aprendidas.
Contudo, é facilmente verificável no dia-a-dia, que raras vezes ouvimos de um adulto encarregado afirmar que está preocupado pelo facto de uma criança se encontrar deprimida por este ou aquele motivo.
Pelo contrário é frequente e comum, ouvirmos dos adultos que os problemas de comportamento da criança são normais tendo em conta a fase do desenvolvimento em que se encontra como tenho vindo a referir anteriormente:

“Isto é uma fase, ela/ele anda mais decaída(o) mas isto vai passar com o tempo, é normal.”

Até poderá passar em muitos casos dadas as capacidades e recursos de cada criança sem fazer grande “moça” ou prejuízo importante, contudo esta forma de resolução não se verifica sempre logo há casos em que as fases de desenvolvimento sofrem danos que podem ser reversíveis ou irreversíveis para a persecução dos objectivos que essa fase visa.

Isto revela as dificuldades que temos para determinar se uma criança tem ou não uma depressão e de que forma ela se expressa nesta criança. É igualmente comum os adultos tenderem a diagnosticar erradamente a depressão infantil (isto porque se iludem com os sintomas tradicionais da depressão no adulto) pela presença de sintomatologia depressiva semelhante à do adulto.
E para piorar as dificuldades do adulto, este tende a negar muitas vezes a depressão na criança como mecanismo de defesa, ou seja, muitos adultos sentem-se culpados ou pensam que a criança está com uma depressão porque eles são maus encarregados, pais, etc… e como tal rejeitam ou são muito resistentes em aceitar, ou pelo menos ponderar tal suspeita, de que a depressão exista nesta ou naquela criança.


Portanto é importante valorizar quando a criança (e é sabido que sensivelmente 5-10% das crianças sofrem de depressão clínica em algum momento da sua infância) apresenta sinais como, nega-se a ir para o colégio, quando exibe uma invulgar vontade de se agarrar ao pai ou à mãe sem querer soltar-se, apresenta comportamento escolar perturbador, mau humor, pessimismo e sensações de incompreensão entre outros.
Tal quadro se não for devidamente valorizado e acompanhado tem consequências negativas ao nível da aquisição de habilidades e competências pessoais e sociais importantes para o bom desenvolvimento da criança e das suas relações significativas (com os pais, etc…).
Também pode, influenciar com mais ou menos estabilidade, o como o sujeito vê o “mundo”, e dar lugar a uma futura personalidade depressiva com problemas associados para toda a vida.

Os sintomas comummente apresentados pelas crianças clinicamente deprimidas, (o que não implica necessariamente a presença de todos os sintomas que se seguem em todas as crianças com depressão), são com as devidas variabilidades de cada criança os seguintes: irritabilidade ou raiva, sentimentos de tristeza e desespero (mais na adolescência), isolamento social, alterações alimentares, alterações do ciclo de vigília-sono, choro fácil, problemas de hiperactividade e défice de atenção e concentração, baixa energia, muito cansaço, queixas físicas como dores de cabeça, estômago resistentes ao tratamentos, sentimentos de culpa e inutilidade, medos, pensamentos negativos sobre a vida, etc…

È portanto muito importante e sério o problema da depressão infantil que devemos valorizar para poder (antes de mais prevenir!) ou proporcionar o tratamento adequado às crianças, isto é depois de as estratégias de prevenção primária não terem resultado, ou seja, normalmente o tratamento só acontece quando estas já apresentam sintomas que são óbvios para os demais e para a própria criança (mau comportamento, fracasso escolar, regressões, criança diz estar aborrecida, cansada, que não é feliz…) e é nesta fase que o psicólogo é procurado, tal facto deve ser quanto antes e sempre que possível promovido e antecipado, para que as crianças não agravem os seus problemas e se desenvolvam de forma adequada de forma a puderem expressar todo o seu potencial de desenvolvimento.

2007-10-08

Máscaras...




És consciente do que se passa no teu interior?



É tido e consentido como “normalidade” o facto de as pessoas não admitirem ou não aceitarem em algumas ocasiões algo que se passa no seu interior, consideram que não é correcto, que não se deviam sentir assim ou que não são do tipo de pessoas que se sentem ou pensam desta ou daquela forma.

Assim sendo, sempre que se vêm confrontados com raciocínios próprios que habitualmente consideram como desadequados ou “incorrectos” tendo em conta o modelo de pessoa que desejam ser, tendem a esconder, negar ou reprimir tal facto aos outros e a si mesmos. Que não é mais do que eliminar da nossa consciência tal raciocínio.

Em face disto, se não é muito frequente e se permite que a pessoa aceite posteriormente o que sente e pensa de forma autêntica não existe motivo para grande alarme. Até porque a realidade se impõe, tornando a aceitação do que se está a sentir e deste modo permite que o indivíduo trabalhe as suas emoções e as transforme de um forma adequada aprendendo e crescendo com todo este processo.

Contudo, há pessoas que têm uma tendência para não aceitar o negativo delas mesmas. Os motivos podem ser diversos. Na maioria as pessoas querem pensar sobre si mesmas como sendo pessoas correctas, equilibradas, que reagem com sensatez, que são politicamente correctas etc… Isto não só impede que reconheçam os seus defeitos e incapacidades ou imperfeições, como também faz com que a tendência para reprimir o negativo de si mesmo que é mais forte quanto maior for o desejo de se mostrar a si mesmo, e aos outros, como perfeito e sem imperfeições.

Podem temer não ser a pessoa que desejam e queriam ser, capazes de resolver os seus problemas com calma, de ser compreensivos e tolerantes, de ver o lado positivo das coisas, etc…

Maria, jamais se recorda de sentir raiva e ira. Não haveria problema algum se esta ausência (destes sentimentos negativos) se fizesse acompanhar da presença de capacidades de gestão do stress de situações do dia-a-dia. Por exemplo, estratégias de resolução dos conflitos aplicadas em face dos problemas, e assim reagir adequadamente às adversidades e responder de forma assertiva aos inconvenientes, obstáculos e abusos provocados pelos outros.
Ou seja, aceitar que se está incomodado com algo ou alguém, expondo aos outros o seu ponto de vista, afirmar o que considera aceitável e inaceitável, dizer não sem sentimentos de angustia ou culpabilidade, de forma a fazer valer os seus direitos e respeitar os direitos dos outros simultaneamente.
Mas não foi isto que aconteceu no caso da Maria, ela sentia ira e raiva, mas negava-o de imediato a si mesma, desta forma mascarava de bom humor e fingia ser uma pessoa que na realidade não o era, porque pensava que as pessoas que sentem ira o reagem com ira, raiva e agressividade são pessoas más e que ter tais sentimentos é uma coisa horrível. Desta forma, não trabalhava ou geria os seus sentimentos, emoções e pensamentos da melhor forma, o que não lhe permitia aprender a ser a pessoa que desejava ser, isto é uma pessoa que reage de forma serena, sensata e assertiva perante as dificuldades e obstáculos.
Maria desconhece assim, a melhor forma de gerir tais emoções adequadamente e não se permite expressá-las inadequadamente.

É evidente que todos podemos estar de acordo em que, deixar sair a raiva e a ira de forma livre e agressivamente destruir, gritar e insultar uma pessoa ao ponto de nos virmos a arrepender dos nossos actos, não é de todo o mais adequado e desejável. Contudo e paradoxalmente isto é preferível a negar o que sentimos. Pelo menos a pessoa que não sabe gerir adequadamente os seus sentimentos e emoções e o reconhece, aceita e a deixa sair inadequadamente, gritando ou destruindo algum objecto, sofre as consequências dos seus actos e terá a oportunidade de arrepender-se e de aprender a trabalhar as suas emoções e sentimentos de modo a que possa expressar toda a sua perturbação emocional futura de forma adequada e assertiva em vez de agressiva.

Uma questão importante que se levanta quando temos consciência desta questão é, mas afinal como se pode fazer isto, se desde o início como se disse, se parte do princípio que os indivíduos negam tais emoções e sentimentos? Como se poderá trabalhar uma emoção um sentimento ou pensamentos que nem sequer se reconhecem ter?

Cada caso é um caso, contudo não raras vezes quando não permitimos ou deixamos que a nossos sentimentos e emoções se expressem de alguma forma, é frequentemente o nosso corpo que se expressa, através de sintomas muito curiosos (dores de cabeça, dores no peito, dores musculares, cansaço…).
No caso de Maria ela também não fugia à regra e apresentava dores por todo o corpo e cansaço crónico.
As pessoas que tendem a reprimir o negativo costumam apresentar queixas (psico)somáticas (problemas gastrointestinais, problemas com o sistema imunitário ou alergias, problemas respiratórios, dores variadas, etc…) bem como sintomas psicológicos (“tenho uma sensação de medo e ansiedade mas não sei de onde vêm”).
Tais sintomas estão relacionados com a tensão e stress emocional a que os indivíduos estão sujeitos aquando da repressão que exercem sobre os seus sentimentos e emoções que não aceitam obrigando desta forma a um esforço e desgaste energético superior e a uma consequente desregulação dos nossos equilíbrios internos (mentais) e externos (corporais) que com o passar do tempo levam normalmente à apresentação de quadros sintomatológicos físicos e psicológicos.
Por tanto, se uma pessoa apresenta quadros sintomáticos dos quais não se consegue reabilitar mesmo com a ajuda médica, quando esta não será a intervenção mais adequada pelo facto de não explicar de todo a presença de tais sintomas físicos e psicológicos, é possível que esta pessoa beneficie com uma ajuda no sentido de prestar uma atenção maior ao que sucede no seu interior e na sua forma habitual de se comportar.

2007-08-08

Férias...


Férias do EU…



Como, onde e com quem repousamos durante as nossas merecidas férias? Será que as nossas relações também fazem férias? Ou será que elas vivem das, nas e para as férias?

Numa altura de “Vá para fora cá dentro”, ou não… talvez valha a pena deixar aqui uma pequena reflexão.
Parece-me que em período de férias devemos ir para fora cá dentro, ou seja, devemos aproveitar os destinos de verão para conhecer outras culturas mas também, ir igualmente para fora de nós mesmos e redescobrir o nosso eu. Isto claro está, depois de se fazer uma “mala” devidamente arrumada que nos permita viajar de forma segura...
Afinal esta partida para um “outro” eu, é o que acontece em todas as nossas férias!? É motivo para perguntar se já fez férias de si mesmo, e já agora, quais foram o/s destino/s escolhido/s nessas férias? Quais foram os preferidos? Quais os que mais desapontaram?

E como planeamos externamente para as férias “coisas” diferentes, em sítios diferentes, com pessoas diferentes… tudo o que é externo é novo. De igual modo, será que toda esta vivência (de ir para fora cá dentro) é igualmente nova internamente? Talvez pelo menos enquanto formos capazes de redescobrir “coisas” novas e desconhecidas no nosso eu de férias, e obviamente enquanto o trabalho o permitir e as férias durarem.

Que viagem estranha esta que se pretende fazer para longe do nosso eu.
Esta viagem poderá por momentos fazer com que o eu que aguarda o nosso regresso, repouse até que um novo eu, regresse da sua viagem “turística” que tal como todas as viagens terá associado um determinado período temporal, espacial e pessoal.

O tempo, esse faz da vontade de regressar ao nosso eu, um destino tão desejado como o foi o destino da partida. Paradoxalmente o mesmo tempo se encarregará de nos proporcionar posteriormente, uma vontade de partir novamente…

Boas Férias!

2007-07-28

Comunicação

Comunicar e Metacomunicar…
Comunicar: Lat. Communicare; fazer Comum, ter passagem, falar e participar.
(Meta)comunicar: tem a finalidade de falar sobre a comunicação

A palavra é uma das mais vulgares formas de comunicação ou de estabelecermos pontes com os outros. É também, uma das mais influentes: com ela podemos transmitir sentimentos e emoções, com ela animamos e entristecemos, destruímos e construímos, mentimos, elogiamos e curámos.
Poucos de nós nos damos conta do poder da palavra e usamos, muitas vezes, sem a mínima cautela, essa “bomba de neutrões” que temos cá dentro.
Se dúvidas existissem bastaria referir o poder que discursos imprimiram na nossa história, os poemas que nos fazem suspirar e prender a respiração ao ouvi-los ou lê-los. Desta forma assim como há palavras que animam as pessoas também as há que desalentam e podem mesmo destruir um bom relacionamento.

Exemplo disto é o que acontece de forma continuada nas nossas famílias, ou seja, existe um padrão mais ou menos estável de comunicação entre pais e filhos que mostram uma cegueira impressionante sobre o poder destrutivo que a comunicação tem nos seus relacionamentos. Ou seja, no que diz respeito à menor qualidade da comunicação, que se manifesta geralmente sob a forma de desvalorizações e comentários negativos (por ex.: comunicação mãe-filho), o que resulta, em jovens com baixa autoestima, baixa autoconfiança e obrigatoriamente inseguros. A insegurança resulta do facto de nestes jovens tudo o que fazem no seu dia-a-dia ser simplesmente ignorado, desvalorizado e visto de forma negativa ou muito raramente ser reforçado positivamente ou elogiado na comunicação que estabelecem com os seus pais. Assim sendo não raras vezes se ouve jovens afirmar “Não digo nada aos meus pais se não matam-me!”, ou comentários parentais do género, “Não fazes mais que a tua obrigação!”.
Devemos ouvir o que os filhos nos querem comunicar, isto sem interromper principalmente para lembrar os erros cometidos anteriormente “Lembras-te da outra vez…?”, “Já me disseste isso antes, e lembras-te do que aconteceu…?” ou usar expressões do tipo “Outra vez a mesma coisa?”, “Tu nunca mais aprendes!”.
Assim a percepção dos grupos de pares começam a ser (sobre)investidos pelos jovens, como alternativa ou para a compensação da compreensão, confiança e satisfação desejável. Esta deslocação é muito frequente nos jovens e é importante, contudo ela faz-se acompanhar de um menor investimento familiar, tal fenómeno é muito generalizado e até esperado, embora não seja sinónimo de perigo ou risco, poderá resultar nele, para os jovens que não tenham uma transição saudável.

Outro exemplo muito comum é o de casais que apresentam problemas de comunicação que se traduzem em problemas mais ou menos sérios no relacionamento conjugal e familiar. Quantas vezes queremos dizer coisas que nos fere ou aborrece e não o fazemos, guardamos tudo no nosso íntimo, pensando que não vale a pena, até que um dia “explodimos” e essas coisas insignificantes convertem-se em comentários destrutivos e agressivos, que geram mais agressividade, que vitimam com danos por vezes irreversíveis ou de difícil gestão, danos que não afectam apenas a um dos indivíduos do casal mas sim a toda a família de uma forma geral (vitimas colaterais). As repercussões podem revelar-se ao nível da insatisfação conjugal, problemas familiares, e reflectem-se igualmente ao nível biológico, psicológico, social e profissional. Contudo é curioso verificar que existe uma grave desvalorização e cegueira perante toda a gama de traumas e agressões psicológicas existentes (que geralmente são de natureza verbal, não esquecendo as não verbais também importantes) bem como, vítimas e seus danos, quando e curiosamente, assistimos inversamente a uma excessiva valorização de traumas biológicos sem grande importância do nosso dia-a-dia, quem não se lembra das famosas nódoas negras, delas ter sofrido e como se desenvolvem?
Para que fique claro, em qualquer situação traumática fisico-biológica, o trauma biológico (a nódoa…) poderá existir ou não mas o trauma ou a perturbação psicológica existe sempre.

A comunicação é uma arte que, felizmente, não se baseia apenas no talento natural de uma pessoa, mas também numa certa quantidade de competências que podemos aprender e treinar.
Sendo assim se considerar-mos de forma simples a comunicação como sendo apenas a capacidade de emitir informação e receber a mesma de forma inteligível, podemos afirmar que comunicar é exprimir-se bem e ouvir bem.
È interessante como o nosso dia-a-dia se verifica constantemente que existem pessoas que parecem não saber parar de falar e outras que dificilmente dizem duas palavras, existem também pessoas que têm grandes dificuldades em saber ouvir o que lhe dizem, e isto claro está em pessoas ditas “normais”.

Também é verdade que falar em comunicação é falar da sua natureza complexa, nomeadamente:

1. Da impossibilidade de não se comunicar, assim sendo comunicação é igual a comportamento. Não é possível não comunicar mesmo não verbalizando (as não verbalizações têm significado), os silêncios, a comunicação não verbal ou, nem sequer, através dos evitamentos que significam que a matéria é indesejável.

2. Toda a comunicação transmite Informação (conteúdo) e define uma Relação. Quanto mais espontânea e saudável é uma relação, mais o aspecto relacional da comunicação recua para um plano secundário, as relações “doentes” caracterizam-se por uma constante luta sobre a natureza das relações (poder, submissão, dependência, independência…), tornando-se cada vez menos importante o aspecto do conteúdo da comunicação (a luta pelo poder da relação: “quem manda”, “quem decide”). Portanto, a relação é uma metacomunicação, dado que é uma informação sobre a informação, e poderá haver confusão entre as duas.

3. Pontuação da sequência da comunicação. A pontuação organiza os eventos comportamentais e, portanto, é vital para as interacções em curso, uma pontuação discordante está muitas vezes na base de graves discordâncias nas relações estabelecidas, no casal por exemplo “eu calo-me porque me criticas”, “eu critico-te porque tu te calas”.

4. A comunicação é Analógica (ou não verbal) e Digital (ou verbal, conteúdo verbalizado concretamente). A comunicação analógica não tem qualificadores para indicar qual de dois significados discrepantes está subentendido, ao contrário da comunicação digital.

Resumindo, os seres humanos comunicam digital e analogicamente: A linguagem verbal ou digital é uma sintaxe lógica (regras gramaticais) muito complexa e poderosa, mas carente de adequada semântica (significado) no campo das relações, ao passo que a linguagem não verbal ou analógica possui semântica, mas não tem uma sintaxe adequada para a definição não ambígua da natureza das relações.

5. Igualdade (simetria) e diferenças (complementar) comunicacionais. Todas as permutas comunicacionais ou são simétricas ou complementares, consoante se baseiam na igualdade ou nas diferenças respectivamente.

Os sujeitos não comunicam: envolvem-se na comunicação, tornam-se parte da comunicação. Portanto, a comunicação não pode ser vista como um sistema acção/reacção.

Finalmente e para que esta arte de comunicar seja funcional, útil e prazerosa devemos promover as capacidades de:

(Meta)comunicação, não é mais do que falar sobre a própria comunicação, (o estilo, a forma, o conteúdo, o tom, o ritmo, os silêncios, os evitamentos, as fugas…);

Ouvir com atenção, com interesse e recorrendo se necessário a pedido de esclarecimento ou de confirmação da informação recebida mediante resumos do que se acabou de ouvir;

Não explodir, não importa o tempo que se demore a ouvir, é muito importante não explodir a meio ou no final da conversa sob pena de se destruir a ponte que nos liga ao outro que é a comunicação, (por ex.: as crianças muitas das vezes, não contam tudo à primeira, é como se fossem testando a reacção do adulto à medida que vão contando o que querem, e se por acaso a reacção do adulto for agressiva ou explosiva ao ouvir algo que geralmente até é inofensivo, as crianças poderão de futuro não ter o sentimento de segurança/confiança e desta forma nunca irão contar tudo, aumentam assim as possibilidades de os pais virem a saber de noticias tristes acerca dos seus filhos por terceiros);

Pensar antes de falar, nem que para tal faça pequenas pausas antes de iniciar a sua narrativa;

Respeite, quem quer ser respeitado respeita os outros, (por ex.: rir dos erros dos outros, “Não me digas que foste tão palerma que…”) devemos partilhar experiências semelhantes e dar a nossa opinião;

Prudência, diga o que deve dizer no momento certo.

OIÇA COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ QUE LHE FALAM E FALE COMO SE FOSSE A ULTIMA VEZ QUE CONVERSAM

Estaremos assim a ajudar os outros mais do que podemos imaginar, e a nossa vida terá mais satisfação relacional, porque os outros sentem mais segurança e confiança em nós.

2007-06-15

Dependência...

Droga de Vida…

O problema mundial da dependência de drogas tem interessado os mais variados sectores da vida social e consequentemente tem sido interpretado e entendido de várias formas o que revela o seu entendimento como difícil e não consensual.
A solução para o problema subjacente à dependência de drogas (entenda-se por drogas não apenas as substancias fisico-químicas mas sim todo e qualquer objecto(s) capaz de causar dependência: físico-química e psico-sociológica) e o que a motiva permanece actualmente desconhecida, logo não existe nenhuma condição sine qua non que nos permita estabelecer um nexo de causalidade directo entre causa/efeito (dependência).
Porque será que umas pessoas experimentam drogas e outras não?

Porque é que umas e não outras continuam a usar?

Porquê umas, e não todas, se tornam dependentes?

De que forma se pode revestir uma dependência?

Apesar de todo este desconhecimento, é tangível observar semelhanças de funcionamento, de processos relacionais e comportamentais que se expressam na dependência pelos diferentes dependentes. Tais observações podem permitir ou contribuir por um lado, para um melhor entendimento acerca do seu aparecimento, desenvolvimento, conservação no tempo e por outro lado, como se pode intervir na dependência e principalmente na sua prevenção. Também será necessário entender o que é uma droga, não apenas na sua forma toxicológica ou química, mas sim de uma forma Humana que contemple a relação do Homem com todas as suas vivências individuais (consigo próprio), grupais, espaciais, temporais e culturais. Da mesma forma é importante referir que quando falamos em dependência temos que ter como certo que são coisas distintas o uso de drogas, o abuso delas e finalmente a sua dependência.

Nós Humanos temos a capacidade (e o limite) de só valorizar o que conhecemos. Saberemos mais sobre a dependência se formos capazes de valorizá-la de forma aberta e construtiva.
O desconhecimento, o evitamento e o preconceito pura e simplesmente leva inevitavelmente à desvalorização de pessoas e dependência/s e ao continuo e progressivo desastre humanitário que leva atrás (ou à frente?) de si suas famílias e sociedades funcionais e/ou (dis)funcionais.

Vale a pena verificar como a dependência se relaciona intimamente com o existir humano.

Caso:
O D. tem 19 anos e diz que consome actualmente drogas leves, tabaco, haxixe, café e álcool (até se podem considerar drogas leves, mas os seus consumos elevados/pesados levam às mesmas problemáticas que a dependência assim como é igualmente norma existir o mito de que se consumir drogas duras mas com consumos leves não existirá problema algum). Refere ainda a sua experiência passada de consumos de cocaína da seguinte forma: pensava em cheirar o tempo todo, se não ficava muito em baixo e desanimado, já só conseguia trabalhar se tivesse consumido, saía a toda a hora para dar um tiro (consumir mais droga) ou, se não podia sair ia ao W.C. e consumia… eu estava a acabar com a minha vida.

Constatada a sua necessidade do uso repetido da substância, do seu mau estar na ausência da substância, a que podemos acrescentar, a percepção de que aqueles consumos não lhe fazem bem, fica claro que existe uma procura contínua do bem-estar que aparece associado ao consumo de substâncias e que por sua vez lhe provocam um enorme mal-estar.

Isto não caracteriza um paradoxo muito curioso?

Qual o sentido deste uso?

A esta resposta parece relacionar-se intimamente o facto de que existe previamente aos consumos a compreensão por parte das pessoas de que em determinados momentos da vida, viver é muito difícil, implica sofrimento assim como implica ter que viver vivendo. Ou seja, não ter respostas antecipadas sobre o seu futuro mas sim encará-lo como algo incerto, incompleto que necessita de ser construído.

O nosso Futuro é um tempo precário no qual o homem se realiza, é no futuro que o homem busca aquilo que ainda não é, mas também é no futuro que se encontra a sua limitação existencial máxima: a morte.

Retomo à resposta e à relação entre o existir humano e a dependência, porque se até aqui não haveria mal nenhum e tal compreensão será comum a todos os humanos, o problema surge então quando o futuro que é residência de todas as possibilidades, incluem-se nestas o ser ou o vir a ser que se apresentam como estando a ser vividas de forma ameaçadora ou como fim. Assim sendo o futuro é como que um desconhecido “Adamastor” que provoca significativa perturbação e angústia que no seu limite abre as portas à dependência como refugio para um viver mais tranquilo, sem dor e alivio para a incerteza que é o seu vir a ser nesta precariedade que é a nossa vida.

É evidente que podemos facilmente identificar outros motivos para o consumo de drogas: a curiosidade, a fuga a determinadas situações, para pertencer a um grupo, para relaxar, para estimular etc… Poderíamos dizer de outra forma que existem vários motivos para comprar o bilhete que nos faz “viajar” aos mais estranhos destinos e direcções “(para)turísticas” utilizando como meio de transporte as nossas sensações, emoções, percepções, sentidos e comportamentos e tendo obrigatoriamente como anfitrião uma qualquer droga que provoca a sensação de prazer imediato ou a ausência do desprazer, e aqui estão por ex. o muito útil, uso de drogas para fim terapêutico que todos usamos e bem. O problema da dependência não se coloca nesta circunstância que acabo de referir coloca-se na capacidade que as drogas têm de produzir sérios prejuízos e consequências como sejam o condicionamento da vida do consumidor dependente no sentido em que este abdica de todos os apelos ou experiências de vida para se dedicar exclusivamente à confiança que deposita nos consumos daquilo que lhe promove um viver melhor ou mais protegido.
Desta forma o indivíduo sente a droga como um poder ao seu alcance de prever e manipular a seu belo prazer a sensação já conhecida anteriormente como prazerosa, e assim sendo, já poderá abdicar da dificuldade de construir o seu futuro, vivendo o seu vir a ser angustiante, para investir a sua atenção no controlo do seu futuro de antemão. Ou seja, acredita que a sua vida pode ser vivida num sentido único que o leva a um eterno presente sem fim.

Para dificultar toda esta problemática já de natureza dramática, quanto mais se consome uma determinada substancia menos prazer se obtém desta, chama-mos a isto de efeito de tolerância. Aqui o consumidor dependente percebe que o efeito desejado inicial só se consegue atingir com consumos continuamente superiores o que se torna insuportável com o decorrer do tempo a vários níveis.
Consequentemente o poder de omnipotência que existia para controlar o seu vir a ser começa a desvanecer e o consumidor irá encetar todos os seus esforços para conquistar os níveis anteriores de prazer agindo numa continuada ilusão da qual não se separa.

Isto leva por sua vez, à transformação contínua do consumidor no sentido deste alterar o seu funcionamento e relacionamento com o mundo, de uma forma partilhada para uma forma isolada e distante dos que o rodeiam e lhe são próximos. Tal facto deve-se principalmente à circunstância de o dependente perder a capacidade de sentir prazer nas coisas do dia-a-dia tal como sentia anteriormente e tal como todos nós sentimos normalmente, inviabilizando desta forma qualquer tentativa de verdadeira relação de partilha com o outro.
Finalmente se pode entender que tal como no caso de D. o dependente afirme paradoxalmente que a sua dependência lhe provoca bem-estar e ao mesmo tempo mal-estar significativo.

Só e enclausurado, é assim que encontrámos aquele que substitui o sabor do tempo pelo sabor da droga.

2007-05-04

Consciência adormecida




Quando a consciência adormece…


A relação entre o sono e o sonho é uma questão já muito estudada quer ao nível do seu desenvolvimento, quer das diferenças entre crianças e adultos, patologias mais frequentes (por ex:. sonambulismo, terror nocturno, insónia…), sua estrutura e dinâmica, nomeadamente os ciclos de sono lento e sono paradoxal (este é também denominado de Sono REM, é onde existe evidência cientifica dos sonhos através dos registos eléctricos), e se dúvidas houvessem relativamente à sua importância e relevância na nossa vida bastaria referir o facto de 1/3 da nossa vida ser dedicado ao sono e consequentemente ao sonho.

Quando falamos em sonhos, dos outros ou dos nossos, estes são muitas vezes motivo de grande divertimento e satisfação, tanto que chegamos a ter dificuldade em recordar e partilha-los, pelo facto de serem recalcados (esquecidos ou não presentes na consciência) tal facto deve-se ao valor ético-moral do conteúdo onírico do sonho, que muitas vezes é duvidoso aos olhos da nossa consciência, e também da consciência dos outros, mas neste caso não poderemos falar de recalcamento mas sim de omissão ou “esquecimento consciente”.
Já não se verifica a mesma satisfação quando os sonhos dão lugar a pesadelos, que sendo igualmente sonhos são recordados com mais facilidade pelo facto de não existir o mesmo nível de censura que existe no caso dos mais prazerosos, o que não significa que estes sejam destituídos de desejos inconscientes, mas revelam as preocupações/conflitos do nosso dia-a-dia, medos e angústias. Também não é um grande divertimento, muito pelo contrário, quando a recordação e a interpretação do sonho está sujeita por ex:. às superstições de mau agoiro, conteúdos oníricos (sonho propriamente dito) que se apresentam como sinais de morte, perda ou acidente em determinados casos, ou como sinais de má sorte ou azar.
Este facto, que pode diferir em função das representações sócio-culturais das pessoas, são comuns ao Homem. Logo é Humano que os seus sonhos “Humanos” sejam vistos com olhos “Humanos” estes terão de ter em consideração a sua racionalidade, irracionalidade, afectividade, cultura, imaginação, desejos e valorização e não podemos esquecer a diferença entre vivência do sonho e relato de um sonho.

Desta forma, é possível fazer muitas interpretações e observações aos nossos sonhos basta questionar o seu porquê e todos arranjamos rapidamente uma justificação, normalmente simples e redutora, que nos parece lógica, racional e consciente. Contudo errar é Humano, e fazer uma análise interpretativa dos sonhos requer cuidado e a devida importância que por vezes não está ao alcance do próprio sem ajuda de um olhar exterior. O que quando bem analisado, apesar do esforço que exige, pode ser um trabalho de enorme prazer e utilidade (é sabido que a frequência, seus conteúdos e interpretações influenciam directamente o nosso estado de saúde mental, personalidade, auto-conhecimento, comportamentos, relacionamentos… e vice-versa).

Desta forma, quando a consciência adormece o inconsciente desperta e os sonhos revelam-se, é curioso como até na bíblia se pode ler: «O Senhor revela-se nos sonhos.»

Na realidade os sonhos oferecem-nos soluções geniais para os nossos problemas que muitas vezes não somos capazes de encontrar no estado consciente. Desta forma quando dizemos que tivemos apenas um sonho é claro que não valorizamos adequadamente a sua importância, nomeadamente o desconhecimento da verdadeira função do sonho: cada um dos nossos sonhos constitui uma reacção do nosso inconsciente a conflitos existentes no nosso dia-a-dia, com a finalidade de sobre eles se debruçar e de os resolver.

Um sonho não compreendido é como um livro que não se leu: de pouco serve. Um sonho devidamente interpretado, pelo contrário, constitui um excelente conselheiro, susceptível de nos dar, todas as noites, indicações extremamente importantes sobre como devemos conduzir a nossa vida.

2007-04-15

Intimidade...


Intimidade (Íntimo + Idade)





O que é, quando existe, como se desenvolve? Compra-se? Vende-se? Quais são as suas consequências? Intimidade ou Intimidades?

Uma coisa é certa é algo complexo e sujeito às mais diversas (in)definições. Assim como definições, Intimidade: Corporal, Familiar, Conjugal, Laboral…(esta última poderá levar, nos dias de hoje em Portugal ao alcance de altos cargos políticos muito dignos!)

Contudo é possível definir a Intimidade através das suas implicações e manifestações na nossa vida. Para isto, basta identificar a forma como nos vinculamos ao outro, a razão de ser da Intimidade, para nós, ou se é uma (in)utilidade? …
Não me parece que possamos inutilizá-la, pois estaríamos a tornar a nossa própria Identidade igualmente inútil, já admito que seja de difícil definição.
Isto porque se é fácil para nós identificar os benefícios\necessidades que, por ex:. o Bebé tem na relação íntima com a sua mãe, verifica-se facilmente a importância da Intimidade para a sua própria sobrevivência, noutros valores e necessidades que vão surgindo no decurso da existência Humana, e apesar de não ser obvio, estes reclamam de igual forma a Intimidade, a bem ou a mal…

Desta forma a Intimidade evolui naturalmente, com mutações de forma, estrutura e dinâmicas que se fazem acompanhar das mudanças no ciclo vital do Homem, experiências passadas de vida, sua personalidade\identidade, bem como investimentos relacionais.

A Intimidade é dinâmica, logo a sua natureza não se pode, (ou não se deveria poder!) limitar apenas a uma definição de mera “ferramenta”, ou responsável de causalidade directa, entre as nossas necessidades e a sua satisfação.
A Intimidade é necessariamente, consequência, resultado ou produto relacional de uma relação bilateral do eu com o outro. Logo a Intimidade que advém da relação de eu-outro pode caracterizar-se pelo resultado de uma mutualidade do prazer, sinceridade, ajuda mútua e preocupação com o outro ou, de forma simplificada, uma capacidade de investimento relacional com força ética e compromisso.

Assim sendo, também é face da mesma moeda a incapacidade deste investimento relacional, e consequente ameaça da Intimidade tal como vem sendo apresentada.
Por ex:. quando se pretende limitar a Intimidade apenas na sua vertente corporal e (des)mentalizada é uma fuga da sua natureza complexa para uma simplificação que poderá levar a uma Intimidade de natureza simples e pobre, diria mesmo, dissociada da verdadeira (desejável) Intimidade Humana.
Pode igualmente esta Intimidade, servir para instrumentalizar ou manipular o outro, bem como o próprio eu, no sentido de satisfazer necessidades bizarras de um eu, (ou outro) que se sujeita ao uso (quando não é abuso!) da sua intimidade. Tal facto verifica-se quando a Intimidade serve como moeda de troca, tornando a sua própria identidade (inevitavelmente) numa falsa realidade de partilha verdadeira, como é o caso das pessoas que vendem a sua Intimidade Corporal pensando estarem apenas a vender o seu corpo e não a sua alma.

Não podemos dissociar corpo-mente sem recorrer a uma fragmentação da nossa identidade\personalidade.

Mas não será necessário recorrer a estes casos de Intimidade, usada e abusada.
Para isso basta-nos observar a relação que todos nós temos de uma ou outra forma, com o sentimento de si mesmo, para nesta relação única, identificarmos a Intimidade que temos com o nosso eu.