2008-04-30

Insurgencia …



Insurgere Relacional

É curioso o tempo em que partilho algo sobre insurgencia relacional, insurgentes, poder e contra-poder e afins… Esta curiosidade de pensar sobre a rebeldia, a oposição e sua dinâmica relacional no Humano, deve-se a um conjunto insurgencias actuais, que aqui e ali vamos conhecendo todos os dias, e a coincidência desta com a recordação colectiva de insurgências sociais passadas de grande relevo.

A insurgencia que me ocupa ou (pre)ocupa, não é tanto a politica ou a escolar entre outras, apesar do momento em que escrevo, mas sim dos seus actores, simbólicos ou não, mais concretamente o que causa a insurgencia ou a explosão emocional no individuo Humano? Quais serão as suas consequências? …

Realmente há uma multiplicidade de factores que se co-relacionam com tal dinâmica relacional, não fossemos todos nós fruto de uma complexa e contínua conflitualidade interna e externa.

Assim sendo, não será uma idealização errante, a da negação da revolta e da luta contínua nas relações humanas? Seremos intolerantes à serena passividade e ausência de conflitualidade?

Sim de alguma forma, até porque o nosso caminho tem sempre (porque de alguma forma procura-mos sempre, diga-se em boa verdade, “pormo-nos a jeito” de), de ter avanços e recuos, altos e baixos, momentos de tensão e relaxamento, e nem sempre se faz em progressão também se faz em regressão, logo temos inevitavelmente de enfrentar, e de confrontar com todo o tipo de alterações neste grande “labirinto” com muitas saídas e obstáculos. E é neste confronto com a mudança, com a diferença, com o passado, com o futuro (será que nos podemos confrontar com o presente?) e com o(s) outro(s), é neste confronto(s), que a inevitabilidade do insurgente, da revolta, da besta, da rebeldia e da oposição ao belo mais se manifesta por mais que o neguemos.

Tal dualidade (bestial ou besta, tudo ou nada, branco ou preto…) muito clivada e muito frequente, esconde uma causalidade (primitiva por sinal…), do problema que residirá na nossa natureza relacional, na nossa temporalidade, na nossa fantasia, ou simplesmente nos medos e desejos.
Talvez resida, pelo menos em parte, na perdida (mas prometida) felicidade, dos contos de fadas, de príncipes encantados, de belas adormecidas, por um lado, e dos contos de bichos papões, maus da fita e afins por outro.
Talvez queiramos repetir vezes sem conta, o “felizes para sempre” dos mais pequenos e, se isto custa por vezes a entender ao adulto, é bom que não custe lembrar que dentro de cada adulto há sempre uma criança e por isso mesmo, não estamos muito longe dessa dinâmica relacional, realidade idealizada e realidade frustrada (tantas vezes), por tantos de nós.

Mas afinal, em que é que uma bela adormecida tem que ver com a insurgencia, ou como se relaciona ela com a revolta e com a luta pelo poder?

Parece inevitável tocar nos monstros, bruxas e fantasmas que não são mais que o outro lado de uma mesma moeda, estes originam-se pela diferença entre a relação inconsciente do que é bom (desejado ou que sacia) e do que é mau (rejeitado ou que frustra) em todos nós.
Como se na criação do feio (projectado ou não) e do belo (idealizado ou não) o Humano, se permitisse inconscientemente, expurgar dos seus demónios utilizando o outro como alvo a abater, mesmo sendo este outro a sua própria sombra ou o reflexo da “besta” que há dentro de nós. Isto tudo, enquanto preserva de forma edílica no seu mais intimo tudo que o realiza, que o inocenta de culpa e pecado, ao mesmo tempo que sacia todos os seus desejos (“Sado-Masoquista” ou outros…).

Agora se pensarmos que o nosso inconsciente acaba por se deslocar e se expressar de forma mascarada no nosso consciente e que por exemplo, onde existe medo já existiu desejo, será de fácil entendimento que na dinâmica relacional de oposição, de insurgencia e de revolta estas se materializam conscientemente, quer pelo medo e logo também pelo desejo, do objecto promotor/alvo de insurgencia.

No entanto uma projecção no outro acarreta sempre a possibilidade de internalização no eu, surgindo assim, em face do desejo de aniquilação disto ou daquilo, surge sempre o medo de ser aniquilado por isto ou aquilo.

Quantas vezes (quer pelo desejo de conquista do poder sobre determinado objecto, quer pelo medo e receio que advêm da ausência dessa conquista e do não controlo sobre o poder o outro), nos vemos confrontados com lutas de poder, e pelo poder, numa dada relação?

Não são mais que, movimentos de procura pela definição, pela atribuição de valor e pela significação, daquilo que sozinhos não podemos definir.
Por outras palavras não é mais do que perguntar, mas afinal quanto e qual é, o meu valor na relação com este ou aquele objecto (que poderá ser uma qualquer coisa ou pessoa)?

Se a estas questões somarmos outras sobre aquilo que esperamos do outro, que produtos queremos obter dessas relações, e em que contextos poderão surgir os conflitos entre outras… chegamos a um tipo de complexidade Humana que só é compreensível, mensurável e susceptível de se trabalhar quando aplicado aos conflitos diários, específicos de cada um, com que vamos sendo confrontados e que vamos mediando duma ou de outra maneira dependendo dos nossos recursos pessoais, fenótipicos (ou superficiais) e genótipicos (ou mais profundos), da nossa história em suma da nossa personalidade.

Outras questões se podem formular sobre a insurgere relacional, nomeadamente;
Quem são as vítimas e os agressores no palco da insurgencia?
As insurgencias internas podem também ser transferidas para o exterior?
De que forma as insurgencias se propagam e se amplificam?
Quais são os seus danos colaterais ou terciários? …

Nas dinâmicas relacionais, a ausência de evidência não é necessariamente evidência de ausência!

Enfim muito fica por dizer, nem se pretende tudo dizer, resta-me apenas afirmar que no que concerne às insurgencias, assim como em outros produtos relacionais “normais” ou “patológicos”, não é a presença ou a ausência desses produtos, a sua qualidade ou mesmo a sua quantidade que permitem prever o equilíbrio mental posterior ou a doença. O que é significativo é apenas a capacidade do Eu em dominar esse(s) produtos relacionais.