
És consciente do que se passa no teu interior?
É tido e consentido como “normalidade” o facto de as pessoas não admitirem ou não aceitarem em algumas ocasiões algo que se passa no seu interior, consideram que não é correcto, que não se deviam sentir assim ou que não são do tipo de pessoas que se sentem ou pensam desta ou daquela forma.
Assim sendo, sempre que se vêm confrontados com raciocínios próprios que habitualmente consideram como desadequados ou “incorrectos” tendo em conta o modelo de pessoa que desejam ser, tendem a esconder, negar ou reprimir tal facto aos outros e a si mesmos. Que não é mais do que eliminar da nossa consciência tal raciocínio.
Em face disto, se não é muito frequente e se permite que a pessoa aceite posteriormente o que sente e pensa de forma autêntica não existe motivo para grande alarme. Até porque a realidade se impõe, tornando a aceitação do que se está a sentir e deste modo permite que o indivíduo trabalhe as suas emoções e as transforme de um forma adequada aprendendo e crescendo com todo este processo.
Contudo, há pessoas que têm uma tendência para não aceitar o negativo delas mesmas. Os motivos podem ser diversos. Na maioria as pessoas querem pensar sobre si mesmas como sendo pessoas correctas, equilibradas, que reagem com sensatez, que são politicamente correctas etc… Isto não só impede que reconheçam os seus defeitos e incapacidades ou imperfeições, como também faz com que a tendência para reprimir o negativo de si mesmo que é mais forte quanto maior for o desejo de se mostrar a si mesmo, e aos outros, como perfeito e sem imperfeições.
Podem temer não ser a pessoa que desejam e queriam ser, capazes de resolver os seus problemas com calma, de ser compreensivos e tolerantes, de ver o lado positivo das coisas, etc…
Maria, jamais se recorda de sentir raiva e ira. Não haveria problema algum se esta ausência (destes sentimentos negativos) se fizesse acompanhar da presença de capacidades de gestão do stress de situações do dia-a-dia. Por exemplo, estratégias de resolução dos conflitos aplicadas em face dos problemas, e assim reagir adequadamente às adversidades e responder de forma assertiva aos inconvenientes, obstáculos e abusos provocados pelos outros.
Ou seja, aceitar que se está incomodado com algo ou alguém, expondo aos outros o seu ponto de vista, afirmar o que considera aceitável e inaceitável, dizer não sem sentimentos de angustia ou culpabilidade, de forma a fazer valer os seus direitos e respeitar os direitos dos outros simultaneamente.
Mas não foi isto que aconteceu no caso da Maria, ela sentia ira e raiva, mas negava-o de imediato a si mesma, desta forma mascarava de bom humor e fingia ser uma pessoa que na realidade não o era, porque pensava que as pessoas que sentem ira o reagem com ira, raiva e agressividade são pessoas más e que ter tais sentimentos é uma coisa horrível. Desta forma, não trabalhava ou geria os seus sentimentos, emoções e pensamentos da melhor forma, o que não lhe permitia aprender a ser a pessoa que desejava ser, isto é uma pessoa que reage de forma serena, sensata e assertiva perante as dificuldades e obstáculos.
Maria desconhece assim, a melhor forma de gerir tais emoções adequadamente e não se permite expressá-las inadequadamente.
É evidente que todos podemos estar de acordo em que, deixar sair a raiva e a ira de forma livre e agressivamente destruir, gritar e insultar uma pessoa ao ponto de nos virmos a arrepender dos nossos actos, não é de todo o mais adequado e desejável. Contudo e paradoxalmente isto é preferível a negar o que sentimos. Pelo menos a pessoa que não sabe gerir adequadamente os seus sentimentos e emoções e o reconhece, aceita e a deixa sair inadequadamente, gritando ou destruindo algum objecto, sofre as consequências dos seus actos e terá a oportunidade de arrepender-se e de aprender a trabalhar as suas emoções e sentimentos de modo a que possa expressar toda a sua perturbação emocional futura de forma adequada e assertiva em vez de agressiva.
Uma questão importante que se levanta quando temos consciência desta questão é, mas afinal como se pode fazer isto, se desde o início como se disse, se parte do princípio que os indivíduos negam tais emoções e sentimentos? Como se poderá trabalhar uma emoção um sentimento ou pensamentos que nem sequer se reconhecem ter?
Cada caso é um caso, contudo não raras vezes quando não permitimos ou deixamos que a nossos sentimentos e emoções se expressem de alguma forma, é frequentemente o nosso corpo que se expressa, através de sintomas muito curiosos (dores de cabeça, dores no peito, dores musculares, cansaço…).
No caso de Maria ela também não fugia à regra e apresentava dores por todo o corpo e cansaço crónico.
As pessoas que tendem a reprimir o negativo costumam apresentar queixas (psico)somáticas (problemas gastrointestinais, problemas com o sistema imunitário ou alergias, problemas respiratórios, dores variadas, etc…) bem como sintomas psicológicos (“tenho uma sensação de medo e ansiedade mas não sei de onde vêm”).
Tais sintomas estão relacionados com a tensão e stress emocional a que os indivíduos estão sujeitos aquando da repressão que exercem sobre os seus sentimentos e emoções que não aceitam obrigando desta forma a um esforço e desgaste energético superior e a uma consequente desregulação dos nossos equilíbrios internos (mentais) e externos (corporais) que com o passar do tempo levam normalmente à apresentação de quadros sintomatológicos físicos e psicológicos.
Por tanto, se uma pessoa apresenta quadros sintomáticos dos quais não se consegue reabilitar mesmo com a ajuda médica, quando esta não será a intervenção mais adequada pelo facto de não explicar de todo a presença de tais sintomas físicos e psicológicos, é possível que esta pessoa beneficie com uma ajuda no sentido de prestar uma atenção maior ao que sucede no seu interior e na sua forma habitual de se comportar.

