2007-06-15

Dependência...

Droga de Vida…

O problema mundial da dependência de drogas tem interessado os mais variados sectores da vida social e consequentemente tem sido interpretado e entendido de várias formas o que revela o seu entendimento como difícil e não consensual.
A solução para o problema subjacente à dependência de drogas (entenda-se por drogas não apenas as substancias fisico-químicas mas sim todo e qualquer objecto(s) capaz de causar dependência: físico-química e psico-sociológica) e o que a motiva permanece actualmente desconhecida, logo não existe nenhuma condição sine qua non que nos permita estabelecer um nexo de causalidade directo entre causa/efeito (dependência).
Porque será que umas pessoas experimentam drogas e outras não?

Porque é que umas e não outras continuam a usar?

Porquê umas, e não todas, se tornam dependentes?

De que forma se pode revestir uma dependência?

Apesar de todo este desconhecimento, é tangível observar semelhanças de funcionamento, de processos relacionais e comportamentais que se expressam na dependência pelos diferentes dependentes. Tais observações podem permitir ou contribuir por um lado, para um melhor entendimento acerca do seu aparecimento, desenvolvimento, conservação no tempo e por outro lado, como se pode intervir na dependência e principalmente na sua prevenção. Também será necessário entender o que é uma droga, não apenas na sua forma toxicológica ou química, mas sim de uma forma Humana que contemple a relação do Homem com todas as suas vivências individuais (consigo próprio), grupais, espaciais, temporais e culturais. Da mesma forma é importante referir que quando falamos em dependência temos que ter como certo que são coisas distintas o uso de drogas, o abuso delas e finalmente a sua dependência.

Nós Humanos temos a capacidade (e o limite) de só valorizar o que conhecemos. Saberemos mais sobre a dependência se formos capazes de valorizá-la de forma aberta e construtiva.
O desconhecimento, o evitamento e o preconceito pura e simplesmente leva inevitavelmente à desvalorização de pessoas e dependência/s e ao continuo e progressivo desastre humanitário que leva atrás (ou à frente?) de si suas famílias e sociedades funcionais e/ou (dis)funcionais.

Vale a pena verificar como a dependência se relaciona intimamente com o existir humano.

Caso:
O D. tem 19 anos e diz que consome actualmente drogas leves, tabaco, haxixe, café e álcool (até se podem considerar drogas leves, mas os seus consumos elevados/pesados levam às mesmas problemáticas que a dependência assim como é igualmente norma existir o mito de que se consumir drogas duras mas com consumos leves não existirá problema algum). Refere ainda a sua experiência passada de consumos de cocaína da seguinte forma: pensava em cheirar o tempo todo, se não ficava muito em baixo e desanimado, já só conseguia trabalhar se tivesse consumido, saía a toda a hora para dar um tiro (consumir mais droga) ou, se não podia sair ia ao W.C. e consumia… eu estava a acabar com a minha vida.

Constatada a sua necessidade do uso repetido da substância, do seu mau estar na ausência da substância, a que podemos acrescentar, a percepção de que aqueles consumos não lhe fazem bem, fica claro que existe uma procura contínua do bem-estar que aparece associado ao consumo de substâncias e que por sua vez lhe provocam um enorme mal-estar.

Isto não caracteriza um paradoxo muito curioso?

Qual o sentido deste uso?

A esta resposta parece relacionar-se intimamente o facto de que existe previamente aos consumos a compreensão por parte das pessoas de que em determinados momentos da vida, viver é muito difícil, implica sofrimento assim como implica ter que viver vivendo. Ou seja, não ter respostas antecipadas sobre o seu futuro mas sim encará-lo como algo incerto, incompleto que necessita de ser construído.

O nosso Futuro é um tempo precário no qual o homem se realiza, é no futuro que o homem busca aquilo que ainda não é, mas também é no futuro que se encontra a sua limitação existencial máxima: a morte.

Retomo à resposta e à relação entre o existir humano e a dependência, porque se até aqui não haveria mal nenhum e tal compreensão será comum a todos os humanos, o problema surge então quando o futuro que é residência de todas as possibilidades, incluem-se nestas o ser ou o vir a ser que se apresentam como estando a ser vividas de forma ameaçadora ou como fim. Assim sendo o futuro é como que um desconhecido “Adamastor” que provoca significativa perturbação e angústia que no seu limite abre as portas à dependência como refugio para um viver mais tranquilo, sem dor e alivio para a incerteza que é o seu vir a ser nesta precariedade que é a nossa vida.

É evidente que podemos facilmente identificar outros motivos para o consumo de drogas: a curiosidade, a fuga a determinadas situações, para pertencer a um grupo, para relaxar, para estimular etc… Poderíamos dizer de outra forma que existem vários motivos para comprar o bilhete que nos faz “viajar” aos mais estranhos destinos e direcções “(para)turísticas” utilizando como meio de transporte as nossas sensações, emoções, percepções, sentidos e comportamentos e tendo obrigatoriamente como anfitrião uma qualquer droga que provoca a sensação de prazer imediato ou a ausência do desprazer, e aqui estão por ex. o muito útil, uso de drogas para fim terapêutico que todos usamos e bem. O problema da dependência não se coloca nesta circunstância que acabo de referir coloca-se na capacidade que as drogas têm de produzir sérios prejuízos e consequências como sejam o condicionamento da vida do consumidor dependente no sentido em que este abdica de todos os apelos ou experiências de vida para se dedicar exclusivamente à confiança que deposita nos consumos daquilo que lhe promove um viver melhor ou mais protegido.
Desta forma o indivíduo sente a droga como um poder ao seu alcance de prever e manipular a seu belo prazer a sensação já conhecida anteriormente como prazerosa, e assim sendo, já poderá abdicar da dificuldade de construir o seu futuro, vivendo o seu vir a ser angustiante, para investir a sua atenção no controlo do seu futuro de antemão. Ou seja, acredita que a sua vida pode ser vivida num sentido único que o leva a um eterno presente sem fim.

Para dificultar toda esta problemática já de natureza dramática, quanto mais se consome uma determinada substancia menos prazer se obtém desta, chama-mos a isto de efeito de tolerância. Aqui o consumidor dependente percebe que o efeito desejado inicial só se consegue atingir com consumos continuamente superiores o que se torna insuportável com o decorrer do tempo a vários níveis.
Consequentemente o poder de omnipotência que existia para controlar o seu vir a ser começa a desvanecer e o consumidor irá encetar todos os seus esforços para conquistar os níveis anteriores de prazer agindo numa continuada ilusão da qual não se separa.

Isto leva por sua vez, à transformação contínua do consumidor no sentido deste alterar o seu funcionamento e relacionamento com o mundo, de uma forma partilhada para uma forma isolada e distante dos que o rodeiam e lhe são próximos. Tal facto deve-se principalmente à circunstância de o dependente perder a capacidade de sentir prazer nas coisas do dia-a-dia tal como sentia anteriormente e tal como todos nós sentimos normalmente, inviabilizando desta forma qualquer tentativa de verdadeira relação de partilha com o outro.
Finalmente se pode entender que tal como no caso de D. o dependente afirme paradoxalmente que a sua dependência lhe provoca bem-estar e ao mesmo tempo mal-estar significativo.

Só e enclausurado, é assim que encontrámos aquele que substitui o sabor do tempo pelo sabor da droga.