2007-11-30

Criança deprimida ou uma “fase difícil”…?




A depressão infantil é em muitos casos algo que fica esquecido ou seja é remetida para segundo plano ou mesmo negada.
Tal facto deve-se entre outros motivos, à forma como o comportamento das crianças é visto e tido pelos adultos que as acompanham de alguma forma.
Face às incertezas e mudanças comportamentais (problemas ou preocupações, que podem ser mais ou menos naturais/adequadas ou esperadas) das crianças, é frequente nos adultos que estes refiram ou justifiquem como causas habituais para as ditas mudanças, a variação natural do seu desenvolvimento (a variação de uma fase do desenvolvimento para outra) na criança, como sendo o principal responsável ou “culpado” por tais alterações, reacções, comportamentos ou pensamentos.

Será que este movimento de diluição da responsabilidade dos adultos não terá nada que ver com a culpabilidade que acarreta para estes o facto de se sentirem fracassados no seu papel de “bons” pais, cuidadores, educadores, etc… quando ou sempre que o desenvolvimento das crianças fica ameaçado/prejudicado/diminuído de alguma forma?

Realmente, acontece no desenvolvimento das crianças que muitas vezes as suas perturbações possam advir do seu estádio de desenvolvimento dito “normal” (e até mesmo fazer parte dele). Assim como é igualmente verdade a possibilidade de o estádio de desenvolvimento em que a criança se encontra, ser seriamente perturbado na sua normal evolução, pela presença de depressão infantil ou outra perturbação na criança que, não foi devidamente acompanhada ou tratada. Exemplo disto é o caso em que a criança apresenta consequências negativas ao nível do seu rendimento escolar (porque a escola está muito presente na vida das crianças e é muito sensível às alterações destas), ou outras formas de regressões como: diminuição das habilidades ou capacidades psicolinguísticas, alimentares, higiene pessoal, etc… que poderia até já dominar e regrediu para uma fase anterior em que estas competências ainda não tinham sido aprendidas.
Contudo, é facilmente verificável no dia-a-dia, que raras vezes ouvimos de um adulto encarregado afirmar que está preocupado pelo facto de uma criança se encontrar deprimida por este ou aquele motivo.
Pelo contrário é frequente e comum, ouvirmos dos adultos que os problemas de comportamento da criança são normais tendo em conta a fase do desenvolvimento em que se encontra como tenho vindo a referir anteriormente:

“Isto é uma fase, ela/ele anda mais decaída(o) mas isto vai passar com o tempo, é normal.”

Até poderá passar em muitos casos dadas as capacidades e recursos de cada criança sem fazer grande “moça” ou prejuízo importante, contudo esta forma de resolução não se verifica sempre logo há casos em que as fases de desenvolvimento sofrem danos que podem ser reversíveis ou irreversíveis para a persecução dos objectivos que essa fase visa.

Isto revela as dificuldades que temos para determinar se uma criança tem ou não uma depressão e de que forma ela se expressa nesta criança. É igualmente comum os adultos tenderem a diagnosticar erradamente a depressão infantil (isto porque se iludem com os sintomas tradicionais da depressão no adulto) pela presença de sintomatologia depressiva semelhante à do adulto.
E para piorar as dificuldades do adulto, este tende a negar muitas vezes a depressão na criança como mecanismo de defesa, ou seja, muitos adultos sentem-se culpados ou pensam que a criança está com uma depressão porque eles são maus encarregados, pais, etc… e como tal rejeitam ou são muito resistentes em aceitar, ou pelo menos ponderar tal suspeita, de que a depressão exista nesta ou naquela criança.


Portanto é importante valorizar quando a criança (e é sabido que sensivelmente 5-10% das crianças sofrem de depressão clínica em algum momento da sua infância) apresenta sinais como, nega-se a ir para o colégio, quando exibe uma invulgar vontade de se agarrar ao pai ou à mãe sem querer soltar-se, apresenta comportamento escolar perturbador, mau humor, pessimismo e sensações de incompreensão entre outros.
Tal quadro se não for devidamente valorizado e acompanhado tem consequências negativas ao nível da aquisição de habilidades e competências pessoais e sociais importantes para o bom desenvolvimento da criança e das suas relações significativas (com os pais, etc…).
Também pode, influenciar com mais ou menos estabilidade, o como o sujeito vê o “mundo”, e dar lugar a uma futura personalidade depressiva com problemas associados para toda a vida.

Os sintomas comummente apresentados pelas crianças clinicamente deprimidas, (o que não implica necessariamente a presença de todos os sintomas que se seguem em todas as crianças com depressão), são com as devidas variabilidades de cada criança os seguintes: irritabilidade ou raiva, sentimentos de tristeza e desespero (mais na adolescência), isolamento social, alterações alimentares, alterações do ciclo de vigília-sono, choro fácil, problemas de hiperactividade e défice de atenção e concentração, baixa energia, muito cansaço, queixas físicas como dores de cabeça, estômago resistentes ao tratamentos, sentimentos de culpa e inutilidade, medos, pensamentos negativos sobre a vida, etc…

È portanto muito importante e sério o problema da depressão infantil que devemos valorizar para poder (antes de mais prevenir!) ou proporcionar o tratamento adequado às crianças, isto é depois de as estratégias de prevenção primária não terem resultado, ou seja, normalmente o tratamento só acontece quando estas já apresentam sintomas que são óbvios para os demais e para a própria criança (mau comportamento, fracasso escolar, regressões, criança diz estar aborrecida, cansada, que não é feliz…) e é nesta fase que o psicólogo é procurado, tal facto deve ser quanto antes e sempre que possível promovido e antecipado, para que as crianças não agravem os seus problemas e se desenvolvam de forma adequada de forma a puderem expressar todo o seu potencial de desenvolvimento.